Midterms nos EUA: vitória democrata ameaça planos de Trump e pode afetar dólar e juros no Brasil

Democratas conquistam controle do Congresso nos Estados Unidos
A vitória do Partido Democrata nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, realizadas na terça-feira (3), pode mudar os rumos da política econômica do presidente Donald Trump — com possíveis reflexos também para o Brasil.
Com a maioria na Câmara e no Senado, a oposição ganha força para barrar propostas do governo sobre gastos públicos, impostos e regulação. O novo cenário também pode influenciar as decisões dos investidores e afetar os juros e o dólar no mercado internacional.
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Conhecidas como “midterms”, as eleições renovam todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e cerca de um terço do Senado. Os deputados têm mandatos de dois anos, enquanto os senadores permanecem no cargo por seis.
👉 Na prática, a votação muda a composição do Congresso, mas não o comando da Presidência. O resultado define o equilíbrio de forças entre o governo e a oposição pelos próximos dois anos.
Os democratas garantiram o controle das duas Casas, impondo uma derrota ao partido de Trump. Até a última atualização, os resultados eram os seguintes:
🔵 Câmara dos Representantes: 228 cadeiras conquistadas pelos democratas, acima das 218 necessárias para garantir a maioria.
🔵 Senado: 54 das 100 cadeiras ficaram com o partido, que também assegurou a maioria.
O resultado confirmou as projeções de avanço democrata. Antes da votação, o BTG Pactual estimava que o partido conquistaria 239 cadeiras na Câmara e 51 no Senado.
A mudança ocorre em meio à queda de popularidade de Trump, cuja gestão é desaprovada por 66% dos americanos, segundo pesquisa Reuters/Ipsos.
O que uma ‘onda azul’ muda para a agenda de Trump?
A chamada “onda azul”, expressão usada para descrever a vitória democrata nas duas Casas do Congresso, deve limitar a capacidade de Trump de aprovar novas medidas e ampliar a fiscalização sobre seu governo, avalia Andressa Durão, economista do ASA.
“Um enfraquecimento do Partido Republicano reduziria o poder do presidente para aprovar determinadas medidas e ampliaria a fiscalização sobre o governo.”
Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, relaciona o desgaste do presidente à insatisfação dos eleitores com o custo de vida, especialmente com os preços dos combustíveis nos EUA.
Ele lembra que a gasolina está acima de US$ 4 (R$ 21,77) por galão e o diesel, de US$ 6 (R$ 32,66). Para o economista, a retomada de ao menos uma das Casas pelos democratas já seria suficiente para dificultar a agenda legislativa de Trump.
O alcance desse bloqueio, porém, dependerá do resultado em cada Casa:
🔵🔵 Com a vitória nas duas casas do Congresso, os democratas passam a controlar a pauta legislativa e as comissões responsáveis por fiscalizar o governo Trump. No Senado, também terão maior influência sobre a aprovação de nomes indicados pelo presidente para cargos do governo e instituições como o Federal Reserve (Fed), banco central americano, e a Suprema Corte.
🔵🔵 Apesar da derrota republicana, Trump mantém o poder de vetar projetos aprovados pelo Congresso. Os democratas, por sua vez, poderão dificultar a aprovação de propostas do governo sobre gastos públicos, impostos e outras medidas. Para derrubar um veto presidencial, será necessário o apoio de dois terços dos parlamentares em cada casa.
Em avaliação feita antes da confirmação da vitória democrata nas duas Casas do Congresso, Sung já alertava para os riscos de maior instabilidade nos mercados financeiros.
“O mercado financeiro ainda não considerou plenamente a possibilidade de os democratas conquistarem o controle das duas Casas do Congresso. Se isso acontecer, o impasse entre o governo e o Legislativo e o avanço de pautas de confronto, como discussões sobre um possível impeachment, devem aumentar a volatilidade nos mercados globais”, afirmou.
Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao lado da primeira-dama Melania conversa com jornalistas após votar antecipadamente nas midterms na Flórida, nos Estados Unidos, em 25 de outubro de 2026.
REUTERS/Umit Bektas
Como as midterms dos EUA afetam o Brasil?
Para o Brasil, os efeitos das eleições americanas podem chegar principalmente por dois caminhos: os rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA e a cotação do dólar.
As decisões do Congresso sobre gastos e impostos influenciam as expectativas dos investidores sobre as contas públicas americanas. Se houver perspectiva de que as despesas do governo aumentem mais do que a arrecadação, por exemplo, os juros pagos pelos títulos do Tesouro podem subir.
🤔 Isso importa porque esses títulos são considerados uma referência para aplicações financeiras no mundo todo. Quando oferecem rendimentos maiores, investir nos EUA fica mais atraente e pode levar investidores a retirar recursos de países emergentes, como o Brasil.
📊 Com menos dinheiro entrando no país, o dólar tende a subir frente ao real. As taxas de juros negociadas para períodos futuros no Brasil também podem aumentar, elevando o custo de financiamento para empresas e consumidores e influenciando as expectativas sobre os próximos passos do Banco Central em relação à taxa básica de juros da economia, a Selic.
Marcos Praça, diretor de Análise da ZERO Markets Brasil, avalia que uma vitória republicana nas duas Casas daria a Trump mais espaço para avançar com cortes de impostos, desregulamentação e políticas comerciais mais duras.
Se essas medidas ampliarem o déficit público, poderão pressionar a inflação e os juros de longo prazo nos EUA.
“Isso tende a pressionar o dólar para cima frente ao real, elevar os juros futuros brasileiros e dificultar o desempenho da bolsa — especialmente de empresas mais endividadas e de setores sensíveis ao crédito, como varejo e construção.”
Por outro lado, a vitória democrata pode limitar novas propostas de aumento dos gastos públicos e aliviar a pressão sobre os juros americanos.
Na avaliação de Praça, a oposição também passa a ter mais poder para “fiscalizar o governo” e influenciar a aprovação de indicados para cargos importantes.
Com menos espaço para aprovar medidas de estímulo à economia, a pressão sobre os juros americanos poderia diminuir.
Isso tornaria os mercados emergentes mais atraentes para investidores, favorecendo a entrada de recursos no Brasil, o fortalecimento do real e a queda das taxas de juros futuras.
Esse efeito, porém, dependeria também do ambiente político nos EUA. Disputas em torno do orçamento e conflitos entre o governo e o Congresso poderiam gerar insegurança entre os investidores e provocar novas oscilações nos mercados.
“Na bolsa, seria desigual: exportadoras podem se beneficiar de um dólar mais alto, mas perder se houver queda das commodities ou da demanda mundial”, diz Praça.
Encontro entre Lula e Trump na Casa Branca.
Divulgação/Ricardo Stuckert
Lula e Trump também preocupam investidores
A relação entre os governos de Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) surge como mais um fator de incerteza para os investidores e pode influenciar a confiança no Brasil.
Após a vitória do petista no último domingo, especialistas ouvidos pelo g1 avaliam que o mercado passou a considerar a possibilidade de uma relação mais difícil entre os dois presidentes.
A perspectiva aumenta a preocupação com novos atritos políticos e econômicos entre os países, como os registrados com o tarifaço e a aplicação da Lei Magnitsky. Para Praça, o resultado das eleições de meio de mandato nos EUA também pode influenciar a continuidade dessas medidas.
Na avaliação de Praça, a vitória dos democratas no Congresso pode dificultar novas medidas comerciais de Trump e acelerar a reação do Legislativo a possíveis atritos com o Brasil.
Atualmente, segundo o especialista, medidas desse tipo têm sido barradas pela Suprema Corte dos EUA, em um processo mais demorado.
O controle democrata do Congresso, porém, não significa necessariamente o fim das tarifas adotadas por Trump. O presidente ainda pode recorrer a diferentes dispositivos da legislação comercial americana para impor taxas sobre produtos importados.
👉 Entre eles estão a Seção 232, que permite a adoção de tarifas por motivos de segurança nacional, e a Seção 301, usada em casos de práticas comerciais consideradas desleais. O governo americano já utilizou esses instrumentos em medidas que atingiram produtos brasileiros, como as tarifas sobre o aço e as ações relacionadas à investigação comercial contra o Brasil.
A possibilidade de impor tarifas, no entanto, também está sujeita a limites legais. Em 20 de fevereiro, a Suprema Corte dos EUA derrubou as tarifas impostas por Trump com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA).
No entanto, a decisão não alcançou as medidas fundamentadas nas Seções 232 e 301, que têm bases legais diferentes.
Ainda assim, o impacto das eleições americanas sobre o Brasil pode se somar aos fatores internos na formação do preço do dólar. Depois das oscilações registradas no período eleitoral brasileiro, a cotação da moeda voltou para a casa dos R$ 5,40.
Segundo Sung, o movimento ocorre em um cenário de fortalecimento global do dólar, impulsionado pelas expectativas de alta dos juros nos EUA.
Essa valorização do dólar tem feito moedas de diversos países emergentes perderem valor em relação à moeda americana. O real, porém, seguiu um caminho diferente.
“O Brasil estava na contramão após o primeiro turno das nossas eleições. Com a vitória do presidente Lula e a frustração das apostas do mercado, o dólar voltou a subir”, aponta.


