O incinerador Vergueiro está localizado no Ipiranga, bem ao lado da estação Santos-Imigrantes do metrô, na zona sul de São Paulo. Funcionou de 1968 a 2002 e era usado para queimar lixo doméstico e hospitalar, animais e drogas apreendidas pela polícia. Sua fumaça emporcalhava o ar da região e alcançava um raio de 10 km. Cerca de 50 toneladas de resíduos eram incineradas todos os dias nos seus dois fornos.
No final da década de 1990 começou a se formar um grande movimento popular para encerrar suas atividades devido aos transtornos que causava. Havia protestos regulares em frente ao incinerador até que, no ano 2000, ativistas e moradores fizeram uma barreira humana para impedir a entrada dos caminhões que chegavam ali, numa ação de grande impacto político.
A partir dessa pressão, estudos realizados pela Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) mostraram que a fumaça de sua chaminé era extremamente nociva e vinha carregada de vírus, coliformes fecais e toxinas. Ficou evidente que a usina não era capaz de acabar com o lixo de maneira adequada e provocava danos à saúde da população. Em dois anos, depois de várias reduções na quantidade de resíduos queimada, ele foi fechado.
Hoje está em ruínas, usado apenas como refúgio de morcegos. Mas sua área de 5.000 m2 mais uma vez é alvo da mobilização popular, que quer transformar o local num centro cultural e num museu do meio ambiente, seguindo um modelo parecido com o da praça Victor Civita, em Pinheiros, onde também funcionou um incinerador e cujo terreno passou por um processo de descontaminação.
O coletivo Usina Ecocultural, com cerca de 200 membros, está à frente do processo de conversão do incinerador em um espaço de cultura, preservação da memória e sustentabilidade no Ipiranga. Em 2022, seus integrantes chegaram a ocupar o prédio e a realizar várias ações artísticas, educativas e esportivas, mas foram expulsos pela subprefeitura.
Passaram, então, a fazer, nos anos seguintes, dezenas de eventos e protestos na rua em frente, a Breno Ferraz do Amaral, reunindo até 3.000 pessoas. No próximo dia 14, haverá um show de rock no local.
A tensão em torno do caso aumentou porque, no dia 21 de outubro, a administração municipal lançou um edital de licitação para mudar a subprefeitura para o endereço onde funciona hoje uma unidade do Descomplica SP, na mesma rua do incinerador, que seria demolido e daria espaço para um estacionamento.
“A demolição é uma estupidez”, diz a arquiteta Débora Machado, uma das principais lideranças da Usina Ecocultural, que na época da ocupação do prédio foi processada pelo vereador Camilo Cristófaro (Avante), cujo mandato foi cassado por quebra de decoro parlamentar. “Esse prédio tem uma arquitetura interessante e importância histórica; deveria ser tombado e preservado.”
Na semana retrasada, cedendo à pressão popular, o subprefeito do Ipiranga, Luis Felipe Miyabara, decidiu suspender o edital até o ano que vem, mas o movimento social quer sua anulação total porque ele pode ser ativado novamente a qualquer momento.
“Vivi os dois momentos de luta que envolveram o incinerador”, conta Débora. “Quando era criança estudei numa escola ao lado e participei da mobilização para fechá-lo e agora trabalho para que ele seja revitalizado.”
Externamente, o prédio não revela problemas estruturais, mas situação de abandono, com janelas e portas quebradas, pichações e muito mato em volta. O problema está no interior, que precisaria de uma reforma completa e uma readequação do espaço para abrigar um equipamento cultural. Também se faz necessária uma análise de contaminação do solo que cerca a construção e de todas suas instalações.
O movimento Usina Ecocultural acha que isso vale muito a pena, por isso quer evitar que o incinerador desapareça. “Demoli-lo seria o capítulo final de uma história de injustiça e o apagamento de uma importante memória da resistência da população do bairro”, afirma Débora.
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noticia por : UOL



