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“Síndrome do imperador”: quando os pais criam pequenos tiranos em casa

Redação by Redação
15 de fevereiro, 2025
in Sem categoria
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O psicoterapeuta e educador Léo Fraiman apresenta no livro “A Síndrome do Imperador” (editora Autêntica) uma reflexão essencial sobre a formação de jovens: será que estamos, sem querer, criando pequenos tiranos dentro de casa?

Com mais de 20 obras publicadas, Fraiman defende que os pais precisam resgatar a autoridade, sem abrir mão do afeto. Ao tentar ser apenas “legais”, muitos se esquecem de ser leais a si mesmos, aos valores que desejam transmitir e ao papel educativo que desempenham.

No trecho a seguir, o autor explica o conceito que norteia a obra e destaca a importância de equilibrar liberdade e limites na criação dos filhos — evitando que a permissividade excessiva resulte em jovens emocionalmente frágeis e desorientados.

Síndrome diz respeito a um conjunto de fatores ou sintomas que costumam aparecer e durar por um tempo, não apenas em momentos pontuais, gerando um prejuízo visível para a saúde física e/ou mental do indivíduo — como ocorre na síndrome do pânico, por exemplo.

Assim, definimos a síndrome do imperador como um conjunto de sintomas que envolvem imaturidade psicológica, intolerância com regras, limites e leis, irritabilidade diante de frustrações, insegurança emocional e atitudinal, insatisfação generalizada, ingratidão com os demais e a vida, inadequação para o mercado de trabalho, incapacidade de lidar com frustrações, instabilidade para tomar decisões, imperatividade social.

Percebemos esses sinais no indivíduo que foi tratado como alguém extremamente especial, como se realmente fosse um imperador, um príncipe, uma princesa. Quando a vida — representada na figura do amiguinho, do treinador, da professora, do guarda de trânsito… — mostra que esse indivíduo é um cidadão igual aos outros, ele não aceita.

Nesses momentos, reage com violência contra si ou contra os outros. Também pode acabar bebendo, comendo e dormindo demais. Sem ter desenvolvido o autodomínio, acaba deixando de sonhar, de estudar, de tentar, de se organizar para a vida.

Com autoestima baixa, ele percebe que é fraco. E aí começa a racionalizar e dizer “eu nem queria mesmo”, “não preciso”, “é besteira”.

Diante da fustração, o sentimento de que podem agredir

Os pequenos imperadores não foram treinados a esperar, a ter empatia, a negociar, a criar, a buscar por si mesmos, a resolver as próprias questões, a honrar seus compromissos. Ou seja, não houve em casa um treinamento de moralidade, de empreendedorismo, de proatividade, de cidadania.

Então, no momento em que são frustrados pelo outro — seja o segurança da balada, o sinal de trânsito, o professor, o namorado ou a namorada —, eles se sentem no direito de agredi-lo. Trata-se de uma cegueira em relação ao outro: não se vê a outra pessoa, só a própria necessidade, narcísica, de passar por cima de quem ou o que quer que seja.

Muitas crianças são tratadas hoje como príncipes ou princesas. Nas redes sociais, muitos pais usam como foto de perfil uma imagem do filho ou da filha. Essas são manifestações comuns na cultura brasileira, que, por vários fatores, coloca a criança no centro da família.

“Meu filho é a coisa mais importante da minha vida”, “pelo meu filho eu faço qualquer coisa”, “fazer a minha filha feliz é o que eu mais quero”, são mantras comuns da família atual. O que era para ser um ato de enobrecimento acaba virando um empobrecimento: se a mãe precisa ser perfeita, seu filho também deve ser.

Para isso, ela tem que suprir todas as necessidades dele, não pode deixar lhe faltar nada. O filho precisa ter todos os privilégios, todas as vantagens. No intuito de serem “legais”, muitos pais e mães se esquecem de ser, antes de tudo, leais: a si mesmos, aos combinados, à escola, à lei.

Pais que querem a todo custo ser legais aceitam tudo em nome da pretensa felicidade e do desejo de serem amados pelos filhos, provocando, ironicamente, o oposto disso, pois filhos imperadores, que dominam os pais, não desenvolvem nem a gratidão, nem a empatia, nem a paciência, elementos essenciais a uma vida boa.

Pais que não são leais àquilo que promove saúde, respeito e educação acabam por pagar um alto preço. Os pais se tornam os betas, enquanto os filhos viram os alfas da casa.

Outro fator é a crença no rápido, no simples e no atalho, muito inspirada na cultura norte-americana, extremamente competitiva. Assim, quanto antes o filho falar e souber nadar, melhor. Quanto mais esportes ele fizer, quanto mais habilidades tiver, mais admirado será.

Isso é o oposto da cultura francesa, por exemplo, que aposta na autonomia, no tempo e em uma formação que venha de dentro para fora — ou seja, que deixa a criança resolver seus problemas por si. Muitos pais, por não terem consciência de seu papel educativo, querem para seus filhos todas as vantagens e privilégios do modo mais acelerado possível, já que acreditam que isso é bom para os jovens.

Um terceiro fator é que temos hoje a percepção bastante frequente de que a vida do adulto está chata. Todo dia ele vê seus impostos aumentando, os empregos diminuindo, os amigos perdendo postos de trabalho. A vida adulta não está fácil para ninguém.

Então, algumas pessoas buscam driblar suas questões existenciais — seus problemas no casamento, as dificuldades geradas pela crise da meia-idade e pelo trabalho —, dando um sentido para a própria vida ao agradar o pequeno ser que é o filho. Essa tentativa de compensar o próprio vazio preenchendo todas e quaisquer necessidades dos filhos é um mergulho narcísico.

De fato, é gostoso para qualquer pai, qualquer mãe, ver o filho feliz. É uma sensação agradável, e isso acaba se tornando um vício, porque o desejo da criança não tem fim. Esse pai e essa mãe não entendem a diferença entre prazer e felicidade.

A felicidade é algo construído, de dentro para fora, pelo próprio indivíduo. E muita gente a confunde facilmente com o prazer, daí o vício em agradar. Porém, é importante que os pais entendam que não é possível driblar as angústias da vida.

A reflexão sobre si mesmo, o autoconhecimento é necessário para uma vida boa. Como disse o filósofo grego Sócrates, “uma vida irrefletida não vale a pena ser vivida”. Afinal, cada um tem que construir a própria história, e não tomar emprestada a vida do filho.

Outra questão é que, em nosso país, os padrões, as referências e os limites nas relações, sistemas e instituições muitas vezes não são claros. Somos o país do espontâneo. Falta entre nós um padrão educacional e a definição de um papel claro para o pai e para a mãe.

Essa espontaneidade muitas vezes torna os pais escravos dos filhos, o que reforça a síndrome do imperador. Se um dia pode, mas outro não; se a mãe não deixa, mas o pai aceita; se a escola não permite, mas os pais deixam, os filhos ficam perdidos. E se perdem.

Para ser líder, é preciso liderar a si mesmo

Como deixar a vida de uma família ser definida pela vontade de uma criança ou de um adolescente que nem tem ainda o córtex pré-frontal bem formado? O córtex pré-frontal é a área do cérebro que mede consequências, que analisa causa e efeito, que avalia as situações no médio prazo, que estabelece o freio moral.

Essa área só se define de forma completa entre os 20 e os 30 anos de idade. Por isso, uma criança, dependendo da idade, não tem a percepção de que comer demais faz mal, de que xingar o outro não é adequado, de que o direito dela é tão importante quanto o do colega.

É o adulto que deve dizer e mostrar isso para a criança. Os pais, no entanto, por gostarem de ver os filhos felizes, muitas vezes não o fazem para não se indisporem com eles, para não enfrentarem cara feia ou birra, para não terem trabalho — pois educar e impor limites dá muito trabalho.

Mas o que não se pode esquecer é que, no processo de educação, o que dá trabalho fazer vai dar muito mais trabalho se não for feito. Educar uma criança está entre as atividades mais trabalhosas e estressantes que existem

E os pais que passam pela primeira vez por esse processo não têm a percepção das consequências de sua omissão e de sua ambivalência em relação aos filhos. Eles ainda não conseguem ver os efeitos disso. Então, acham que o filho é espontâneo, um líder, tem vontade.

Essas, aparentemente, são qualidades desejadas para um empreendedor. O que os pais não percebem é que o excesso dessas características gera outro efeito: o filho não vai ser líder de ninguém porque, para liderar o outro, é preciso liderar a si mesmo.

Aquele que não tem autocontrole jamais poderá controlar uma equipe, um relacionamento, um time ou uma empresa. Não é recomendado se orgulhar quando a professora diz que ninguém consegue parar uma criança, que ela manda na classe inteira, só faz o que quer, como se isso fosse uma mostra de liderança. Ao agir assim, não se percebe que ali há uma pequena imperatriz, que enlouquece a professora e não tem empatia com os colegas.

Vivemos hoje não uma inversão de valores, e sim uma falta deles, de clareza sobre o que é certo e errado e sobre a diferença entre ter limites e ser um ditador. Isso leva a uma negação frequente das regras, o que tem um impacto ruim não só na vida da criança ou do adolescente, mas também em toda a sociedade.

Uma criança que cresce correndo entre as mesas de um restaurante, gritando em espaços públicos, usando o celular ou game em um volume alto nos locais públicos, que faça o que quiser em qualquer ambiente não desenvolve o autocontrole.

Em alguns casos, os pais que têm um filho imperador se regozijam disso, porque têm uma leitura errada da situação. Acham que é bonitinho, assim como antigamente se pensava que era bom o bebê ser gordinho — hoje já se sabe que isso pode trazer uma série de problemas que vão muito além da estética.

Atualmente, o equívoco é achar que criança feliz é aquela que faz só o que quer, que tem vontade e é autêntica, desde bebê. Só que a criança (por si só) não tem condições de entender as consequências de seus desejos infindáveis nem de perceber que a vida é finita.

Os filhos merecem aprender que devemos encontrar alegria e prazer em relações harmônicas, solidárias e empáticas e em momentos em que vivemos o simples e, dele, apreendemos a felicidade. Em resumo, que somos verdadeiramente felizes com o ser e não o ter, com o conviver e não o comandar.

noticia por : Gazeta do Povo

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