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Anfavea volta a criticar imposto menor para carros chineses e fala em 'competição desigual'

HENRIQUE by HENRIQUE
7 de julho, 2026
in DESTAQUES, GERAL
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Fábrica da BYD em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador
Malu Vieira/ g1 BA
A decisão de ampliar a isenção de imposto para carros elétricos semidesmontados até janeiro de 2027 cria um cenário de “competição desigual”. Essa é a avaliação de Igor Calvet, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).
Segundo o executivo, as montadoras com infraestrutura instalada há mais tempo no Brasil ficam em desvantagem, especialmente diante das marcas chinesas, que importam grandes volumes de veículos desmontados com carga tributária menor.
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“Se é para simplesmente importar, a empresa faz isso com custo chinês, com logística e custo de capital mais baratos. Aí não há jeito de competir”, explica Calvet.
Uma das reclamações da Anfavea ao Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex), responsável pela medida, é que não houve discussão sobre a prorrogação do incentivo. Segundo a entidade, a decisão foi tomada sem consulta à associação e às montadoras associadas.
Carregador ultrarrápido da BYD vai até 97% em 9 minutos
Em junho, o Gecex renovou a cota de importação sem impostos para veículos elétricos desmontados e semimontados. Com isso, os veículos montados no Brasil (CKD) e os semimontados no país (SKD) continuarão isentos do imposto de importação pelos próximos seis meses.
A cota de importações isenta de imposto é de US$ 463 milhões para o período de seis meses iniciado em 1º de julho de 2026. A medida vale até janeiro de 2027.
O ministro Márcio Elias Rosa (Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior) defendeu a medida em entrevista ao programa “Bom dia, Ministro”, da EBC.
“O governo federal tomou a decisão não foi para causar danos à indústria nacional, mas foi para favorecer, sobretudo, o consumidor, o mercado. E não ignorando que temos de ter uma série de medidas para acomodar todos os interesses, que são legítimos”, disse.
Como são montados os carros com partes importadas
Arte/g1
Critério ruim
Segundo Andrea Serra, diretora tributária e de comércio exterior da Anfavea, um dos critérios para acessar o benefício é o volume de importações realizado pela empresa. Segundo ela, esse cálculo não reflete a configuração atual do mercado.
“Um dos nossos pedidos seria considerar somente os últimos seis meses para dividir essa cota com um retrato mais atual do mercado brasileiro”, explica a diretora.
Pelas regras atuais, cerca de 80% da cota de isenção ficará concentrada na BYD.
Já segundo Calvet, se toda a indústria automotiva brasileira migrasse para os regimes CKD e SKD, cerca de 70% dos empregos do setor seriam perdidos. Isso ocorreria porque esse modelo de montagem tem menos etapas e demanda menos mão de obra.
Um estudo da Anfavea estima que, para cada 10 trabalhadores necessários à produção de um carro no Brasil, apenas três seriam suficientes para montá-lo nesses regimes.
“Não adianta haver indicativo de que o Brasil precisa caminhar para uma produção sofisticada e completa de carros eletrificados e, ao mesmo tempo, haver incentivo para a importação de carros desmontados”, diz Calvet.
Igor Calvet, presidente da Anfavea
Divulgação | Anfavea
O que dizem as montadoras chinesas
As montadoras chinesas afirmam que a importação de veículos semimontados é essencial para viabilizar a instalação gradual de suas operações industriais no Brasil.
“É impraticável qualquer indústria automobilística vir para o Brasil investir bilhões de reais e não começar pelo regime de montagem. Não existe, não existiu”, afirmou o vice-presidente sênior da BYD, Alexandre Baldy, em entrevista recente ao g1.
Como esse tipo de montagem tem carga tributária menor do que a aplicada às demais montadoras instaladas no Brasil, houve atritos no setor. As associadas da Anfavea afirmam que esse modelo permite às fabricantes chinesas praticar preços mais baixos que os concorrentes.
Em defesa própria, as marcas chinesas afirmam que os kits chegarão ao Brasil cada vez menos completos, à medida que etapas como soldagem, moldagem de peças e pintura forem incorporadas à produção local.
Além da BYD, GWM, Geely e marcas do grupo Chery estão iniciando a produção em fábricas próprias no Brasil.
Novas projeções
A Anfavea revisou para cima a projeção para o mercado automotivo brasileiro em 2026 e passou a prever que o país ultrapasse a marca de 3 milhões de veículos vendidos neste ano.
Se a estimativa se confirmar, será a primeira vez desde 2014 que o setor alcançará esse patamar. A expectativa da entidade é de que os emplacamentos cresçam 11,7% em relação a 2025, bem acima da previsão divulgada em janeiro, que apontava alta de apenas 2,7%.
Segundo a Anfavea, o desempenho é impulsionado principalmente pelo mercado de automóveis e comerciais leves, cuja projeção de crescimento foi elevada para 12,6%. Já os segmentos de caminhões e ônibus devem encerrar o ano em queda de 6%.
Apesar do aquecimento das vendas no mercado interno, a entidade afirma que a indústria nacional não consegue acompanhar o mesmo ritmo de crescimento por causa do aumento das importações e da redução das exportações.
A projeção para a produção de veículos também foi revisada para cima, passando de crescimento de 3,7% para 5,8% em relação ao ano passado. Com isso, o Brasil deve fabricar cerca de 2,8 milhões de veículos em 2026, o maior volume desde 2019.
“O mercado nacional segue muito aquecido, e isso tem contribuído para uma leve alta no nível de empregos. Por outro lado, parte dessa recuperação vem sendo capturada pelas importações”, afirmou Calvet.
Linha de montagem da fábrica da Volkswagen em Taubaté (SP)
divulgação/Volkswagen
Melhor primeiro semestre desde antes da pandemia
Os números do primeiro semestre reforçam o bom momento do mercado automotivo brasileiro. Entre janeiro e junho, foram produzidos 1,372 milhão de veículos, alta de 8,8% em relação ao mesmo período de 2025.
Esse é o melhor resultado para o período desde 2019. As vendas de automóveis cresceram 23,7% no semestre, o equivalente a 208 mil unidades a mais do que no ano anterior.
De acordo com a Anfavea, cerca de 73 mil dessas vendas foram impulsionadas pelo programa Carro Sustentável, voltado aos veículos de entrada. Outros 130 mil veículos vendidos vieram do avanço dos modelos eletrificados — sendo aproximadamente 70 mil produzidos no Brasil e 60 mil importados.
Em junho, os veículos eletrificados alcançaram participação recorde no mercado brasileiro, representando 20,9% das vendas de veículos leves.
Já o mercado de pesados continua mais fraco. No acumulado do semestre, as vendas de caminhões caíram 10,5%, enquanto as de ônibus recuaram 11,6%, apesar de junho ter registrado o melhor desempenho do ano para ambos os segmentos.
Veículos da Stellantis produzidos no Brasil para exportação
Divulgação / Stellantis
Exportações caem mais de 20%
Enquanto o mercado interno segue aquecido, as exportações continuam em retração. Em junho, os embarques de veículos ficaram 26,7% abaixo do registrado no mesmo mês do ano passado. No acumulado do semestre, o Brasil exportou 216,6 mil veículos, queda de 21,2%.
Segundo a Anfavea, a principal razão é a redução da demanda da Argentina, tradicional destino das exportações brasileiras, além do avanço da concorrência de veículos produzidos na China e no México.
Diante desse cenário, a entidade passou a projetar queda de 12,8% nas exportações em 2026. Em janeiro, a expectativa era de crescimento de 1,5%.
O avanço das importações fez o setor automotivo brasileiro voltar a registrar déficit na balança comercial após vários anos.
Entre janeiro e junho, entraram no país 280,6 mil veículos importados, enquanto as exportações ficaram abaixo desse volume em cerca de 63 mil unidades.
A China respondeu por metade dos veículos importados no período. Em apenas um ano, o número de automóveis chineses vendidos no Brasil dobrou, passando de cerca de 70 mil para 140 mil unidades, segundo a Anfavea.



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