FLÁVIO, EDUARDO E O CLÃ
“Mas o nome da extrema direita não é, afinal, o senador Flávio Bolsonaro?” Ainda não. Vamos ver. Para quem anunciou a si mesmo como pré-candidato há pouco mais de um mês, seu desempenho está longe de ser sofrível. Tivesse outro sobrenome, seria considerado um fenômeno eleitoral. Mas ele é filho de seu pai. É o que lhe garante o patamar elevado de saída. Ocorre que são poucos os que, entre seus aliados potenciais, especialmente no Centrão, acreditam na chegada.
Isso não tem muita importância para seu irmão Eduardo e a leitura que faz do jogo. Falando ao podcast “Market Makers”, em novembro do ano passado, quando ainda vislumbrava a própria candidatura, afirmou:
“Quem vai ser o candidato, eu não sei. Mas eu também vejo vitória na derrota. (…) Ainda que, de maneira arriscada, apostássemos [na candidatura], e eu viesse a perder, nós conseguiríamos ter um êxito: o de manter acesa a chama do conservadorismo”.
“Ah, isso é maluquice”, diriam alguns. Não é! A apreensão que ele faz da realidade é racional, dados os seus horizontes finalistas, de triunfo de uma extrema direita, vamos dizer, “puro-sangue”. Apontei ser essa a pretensão de Eduardo — e do próprio Bolsonaro — num texto publicado aqui no dia 7 de julho do ano passado, intitulado “O projeto Tarcísio traduz a ambição de ter um bolsonarismo sem Bolsonaro”. Este era o último parágrafo:
“Não quero chocar ninguém, mas o fato é que, havendo um Lula eventualmente vitorioso contra um Bolsonaro qualquer, o clã seguirá liderando a oposição. No caso do triunfo de Tarcísio contra o petista, o capitão será apenas o segundo em Roma. Depois de algum tempo, isso valerá muito menos do que ser o primeiro numa vila.”
Eduardo errou todas as apostas que fez ancoradas na fidelidade de Trump ao clã e forneceu a Lula uma avenida de facilidades políticas então imprevistas, mas é inegável que, até agora, conseguiu manter no âmbito da família um espólio de milhões de eleitores. Com essa fidelidade, pode infernizar a vida de qualquer presidente. Uma eventual vitória de Tarcísio tornaria, em tempo relativamente curto, irrelevante essa notável “aristocracia” reacionária.
Eduardo afirmou ainda naquela entrevista:
“Olhem, de fato, existe um projeto do establishment, que quer enterrar o Bolsonaro e o bolsonarismo para colocar adiante um candidato, né?, que seja pintado de direita, porque a gente está vendo que até o centro está vindo para a direita. Qual o secretário conservador, qual o secretário bolsonarista do governador Tarcísio de Freitas? O Tarcísio sendo eleito, isso é uma vitória da direita? Não! Isso é visto com bons olhos pelo pessoal da Faria Lima por causa da gestão do Tarcísio. Mas a gente já passou da fase de ser antipetista. A gente está na fase das proposições, da pauta positiva, da construção de um projeto Brasil. Então, nesse sentido, o Tarcísio, com todo respeito, por melhor gestor que ele possa ser, não me serve”.
Para Eduardo, portanto, qualquer resultado é jogo jogado. Ocorre que Flávio, o ora candidato da extrema direita, precisa de aliados políticos; tem de atravessar as agruras de uma campanha. Os, sejamos bem genéricos, agentes políticos — aí entendidos os profissionais da área propriamente, os agentes econômicos, “uzmercáduz” — também se movem pela expectativa de poder. Qualquer um que alimente uma equação com os dados corretos que integram uma campanha eleitoral poderá perceber — e números de pesquisa são apenas um desses elementos; a tal distância do pleito, nem são os mais importantes — que Tarcísio se mostra o nome mais viável, como, aliás, praguejou (com todo respeito, claro!) o pastor Silas Malafaia.
noticia por : UOL


