Pensei em chamar esta coluna de “a arte de fazer amigos” mas, além de não aguentar mais ouvir “a arte disso ou daquilo”, logo me ocorreu que fazer amigos não é uma arte. Mantê-los é uma arte, fazê-los está mais para um acidente.
O momento em que conhecemos aquele que virá a se tornar nosso amigo é uma espécie de colisão. Dois corpos se chocam num determinado espaço, trocando olhares, impressões, gestos, palavras e outros sinais que provocarão —sem que saibamos explicar o porquê —uma certa simpatia e interesse mútuo.
Ensinei a uma amiga portuguesa como se diz isso no Brasil: meu santo bateu com o seu. É uma expressão muito boa, porque indica que algo muito sagrado em nós —o santo, a alma— se acertou com o sagrado de outra pessoa.
Não é matemático nem previsível. Nunca me esqueço quando, aos 24 anos, entrei no dormitório da universidade que frequentaria e vi os objetos pessoais daquela que seria a minha colega de quarto, antes mesmo de conhecê-la. O seu porta-retratos com bailarinas de Degas, seus quadrinhos de moldura rococó, suas almofadas cor-de-rosa, seus sapatos caretas, seus enfeites de estética romântica.
Mirando meus coturnos estropiados, pensei que jamais seríamos amigas mas, quando ela apareceu, a colisão nos nossos santos foi ótima. A moça era ácida, culta, sagaz nos comentários e tinha a risada de uma pessoa meio perturbada mentalmente —o que me cativou de vez.
Ali iniciamos uma amizade que vem se prolongando por décadas, apesar de agora termos um oceano de distância. Mesmo tendo pouco contato, quando nos encontramos a conversa flui como se tivéssemos nos visto no dia anterior.
Chego a pensar que essa e outras colisões que já tive são tão pródigas que chegam a produzir uma terceira entidade: A Nossa Amizade. Uma espécie de sujeito nascido de dois sujeitos. Um rebento gestado a partir de duas identidades únicas e, portanto, irreplicável e dotado de personalidade própria.
A Minha Amizade com H.R é verborrágica: seguimos falando mesmo quando acabam os assuntos. A Minha amizade com D.B é irreverente: gostamos de provar roupas e inventar personagens de nós mesmas.
A Minha amizade com C.B é telúrica: fazemos ioga e tentamos ter algum sucesso na meditação. A Minha Amizade com P.W é meio autodestrutiva: antes nos entorpecíamos de álcool, hoje de produtos sem glúten. A Minha amizade com A.R é hedonista: sempre nos reunimos em torno de uma boa comida. Com J.E, hipocondríaca: trocamos contatinhos de médicos e somos taradas por uma bula.
É como se eu me fatiasse e cedesse uma parte de mim a cada amigo. Com cada um exercito uma Giovana. E, na pluralidade dessas relações, me exercito por inteiro.
Uma pena que estes amigos estejam espalhados por diversas cidades, resultado da minha vida cigana. Um desejo? Criar um paisinho e colocar todos lá dentro. Uma republiqueta habitada por mim, pelos meus amigos e por Nossas Amizades, que poderiam inclusive se relacionar entre si como corpos independentes, como já fazem nas poucas vezes em que consigo reunir dois ou mais amigos num mesmo canto.
É o que posso imaginar de melhor: estar cercado de camaradagem, afeto e acidentes positivos em um mundo tão adverso e tão cheio de fronteiras de todos os tipos.
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noticia por : UOL


