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The Town termina sem conseguir ser mais que irmão caçula do Rock in Rio

Redação by Redação
14 de setembro, 2025
in Sem categoria
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O The Town nasce de uma ideia óbvia —por que não fazer um Rock in Rio em São Paulo? É isso que o festival vem tentando desde sua primeira edição, no ano retrasado, e agora, com shows que aconteceram nos dois últimos fins de semana no Autódromo de Interlagos.

Mas a verdade é que o The Town não é o Rock in Rio, e nem São Paulo é o Rio de Janeiro. Há particularidades nas metrópoles brasileiras que tornam essa missão mais desafiadora do que parece.

A começar pela oferta de shows. A capital paulista é uma das melhores cidades do mundo para se consumir música ao vivo —vai de casas pequenas e unidades do Sesc ao Allianz Parque, feito para grandes apresentações.

Basta notar que grande parte das principais atrações deste The Town tocaram em São Paulo recentemente —Travis Scott, Mariah Carey e Lauryn Hill no ano passado, e Backstreet Boys em 2023, todos no estádio do Palmeiras. No Rio, não existe a mesma estrutura nem a mesma demanda. O desejo do público de ver esses grandes astros, portanto, é maior ali.

O Rock in Rio é o grande evento musical dos cariocas. O The Town, ainda que tenha uma proposta artística diferente, compete com o Lollapalooza, que acontece todo ano no mesmo Autódromo de Interlagos, e com outros festivais menores —o Coala Fest foi realizado de maneira concomitante ao primeiro fim de semana do megaevento. Nesse cenário, o The Town só teve um de seus cinco dias esgotados com antecedência. Nos outros, era visível que os shows não atingiram a lotação máxima.

Afora questões culturais de cada cidade, isso causa um impacto indesejado ao The Town —o de ter o público mais morno de todos os megafestivais do país. A máxima espalhada pelo mundo, de que a plateia brasileira é a melhor, não se sustenta no evento.

Há exceções, mas de maneira geral o público no The Town é desapaixonado e apático, diferente até de quem assiste a esses mesmos artistas em shows individuais em São Paulo. A balança pende mais para o espectador passivo —aquele que conhece poucas músicas e sai de casa pelo passeio— do que para o fã emocionado.

O momento sincerão no show de Jessie J neste sábado ilustra bem esse comportamento. “Tem tanta gente aí, e está tudo tão silencioso”, ela observou, no palco. Na outra ponta, Ivete Sangalo, acostumada a arrebatar plateias, pareceu dar um recado logo no início de sua apresentação, dizendo que queria um público “quente, participativo e feliz”.

Uma das explicações disso pode estar no lineup. É difícil criar uma reputação própria e novas experiências quando quase todos os headliners de 2025 —Katy Perry, Green Day, Travis Scott, Mariah Carey— são reciclados de edições recentes do Rock in Rio.

Também não contribui o fato de que, dos headliners, apenas o trapper americano esteja no auge de sua produção, lançando trabalhos que capturam o que existe de atual na música contemporânea.

Os outros já têm décadas de estrada e trajetórias que não são ascendentes. Backstreet Boys, Mariah Carey e Katy Perry, por exemplo, fazem ou já fizeram temporadas de shows em Las Vegas —veteranos encontram no local fixo a saída mais segura para carreira.

Apesar disso, a boy band se valeu do ineditismo de ter sido a única atração que não havia se apresentado nos eventos da Rock World.

A tradução disso foi um show de plateia mais cheia, atenta e emocionada do que a média no evento.

Ainda assim, ajudou a comprovar que o The Town não é um festival de novidades, mas um que o público busca ouvir aquele hit que foi trilha sonora da vida de muitos 20 anos atrás. Não seria um problema se o resultado não fosse, com frequência, shows em que a plateia filma uma ou duas músicas e passa o resto do tempo conversando distraidamente.

Ironicamente, a sexta-feira (5) que marcou o primeiro dia do evento, o único dedicado a uma cena mais contemporânea, o trap, foi também o que teve os ingressos esgotados antecipadamente.

O gênero já havia se mostrado um filão promissor na estreia do The Town, quando representantes da cena fizeram shows lotados e de plateia ensandecida. Agora, com mais espaço, funcionaram ainda melhor, porque têm uma lógica própria e atraem um público mais jovem e diverso do que o típico do festival.

Nos outros dias, o palco The One —o segundo maior do evento— acabou sendo o reduto de alguns dos shows mais empolgantes. Foi lá que atrações como Lauryn Hill, Iggy Pop, Lionel Richie, Pitty, Matuê e Ludmilla conseguiram protagonizar apresentações com cara de festival de música.

O palco ainda se revelou o melhor em termos de estrutura, já que aproveitou o morro que forma um anfiteatro natural e que é há anos explorado pelo Lollapalooza. Foi uma mudança bem-vinda em relação à primeira edição.

Não se pode dizer o mesmo do Skyline, a casa dos headliners. Além de um sistema de som frequentemente aquém do espaço, ele faz o oposto do The One e ficou mais alto do que o público. Para quem está mais atrás, é ruim de ouvir e assistir às apresentações.

Aí está outra grande diferença para o Rock in Rio, o mais confortável entre os megafestivais do país, com uma estrutura sólida e uma expertise em ocupar a área plana do Parque Olímpico. O que há de melhor na estrutura do The Town é, na verdade, resultado de parcerias do evento com a Prefeitura de São Paulo —investimentos em transporte e banheiros que também beneficiam outros eventos no Autódromo.

Em sua segunda edição, o The Town não conseguiu ser mais do que o caçula do Rock in Rio. Ainda patina na busca pela própria identidade e por um chamariz que vá além de uma curadoria que agrupa as mesmas atrações que já tocam na cidade e no evento carioca, a cada dois anos.

Acima de tudo, falha em entender a metrópole paulistana para além dos prédios que adornam seu palco principal, o Skyline.

noticia por : UOL

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