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Como – e por que – Bolsonaro foi preso em 1986 

Redação by Redação
5 de agosto, 2025
in Sem categoria
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Jair Bolsonaro cumpre prisão domiciliar por ordem de Alexandre de Moraes, após uma série de punições sem condenação e sem previsão legal. Mas esta não é a primeira vez que Bolsonaro foi preso. Em 1986, ele também enfrentou uma detenção, só que dentro do Exército e por razões muito distintas. 

Naquele tempo, Bolsonaro tinha 31 anos e já demonstrava ter um temperamento sanguíneo. A razão para a inconformidade do futuro presidente eram os baixos salários dos militares. Foi essa indignação que o levou ao centro de um episódio polêmico, culminando na sua prisão disciplinar em 1986.

A insatisfação que virou prisão 

No final dos anos 1980, o Brasil vivia tempos difíceis. A inflação disparava, os salários eram corroídos mensalmente e os militares estavam entre os mais prejudicados. Foi nesse contexto que Bolsonaro, então capitão do Exército, passou a se destacar como uma voz ativa dentro da corporação, denunciando publicamente a situação de penúria dos oficiais. 

Em setembro de 1986, Jair Bolsonaro publicou um artigo de opinião na revista VEJA com um título direto: “O salário está baixo”. No texto, ele denunciava que os militares estavam em situação crítica. “Sou obrigado pela minha consciência a confessar que a tropa vive uma situação crítica no que se refere a vencimentos”, escreveu. Ele detalhou que um capitão com quase uma década de serviço recebia pouco mais de 10 mil cruzados, valor que considerava incompatível com a responsabilidade do cargo.

Retrato da turma da ESAO (Escola Superior de Aperfeiçoamento de Oficiais) de 1987 em que Jair Bolsonaro aparece em pé ao fundo, próximo à terceira janela, na quinta fileira. (Foto: Reprodução/Comando do Exército)

Ao final, fez um desabafo: “Corro o risco de ver minha carreira seriamente ameaçada, mas a imposição da crise é maior. Sou patriota, cumpridor dos meus deveres, e mesmo assim não consigo sonhar com as necessidades mínimas que uma pessoa do meu nível poderia almejar.”

O artigo lhe custou caro: eles foi preso por 15 dias por “transgressão grave” e acusado de “ferir a ética militar”. Militares não podem falar à imprensa sem autorização dos superiores. Muito menos para criticar o próprio comando da instituição.

Julgamento por planejar atentado

A postura de Bolsonaro chamando a atenção da imprensa. Em setembro de 1987, a revista Veja publicou uma matéria explosiva, sem trocadilho. A reportagem trazia a acusação de que Bolsonaro estaria envolvido em um plano para detonar pequenas bombas em unidades militares, como forma de protesto contra os salários indignos. O suposto plano, segundo a revista, chamava-se “Beco Sem Saída” e teria como alvos banheiros de quartéis e instalações militares no Rio de Janeiro. 

A reportagem causou ainda mais repercussão no meio militar que o artigo de Bolsonaro. Não houve acusação criminal formal na época, mas o caso gerou um processo disciplinar e posteriormente chegou ao Superior Tribunal Militar (STM). 

O que disse a revista VEJA

A matéria da VEJA foi publicada com o título “Pôr bombas nos quartéis, um plano na ESAO”. Esta é a sigla para Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, uma instituição de ensino do Exército Brasileiro. E o texto se baseava em entrevistas e documentos atribuídos ao próprio Bolsonaro. Entre os materiais divulgados estavam croquis que mostravam pontos onde seriam instalados explosivos, inclusive em uma adutora de água potável que abastecia o Rio de Janeiro. A reportagem afirmava que o capitão estava tão insatisfeito com os salários que teria planejado essas ações como forma de chamar atenção para a causa.

Bolsonaro, por sua vez, negou enfaticamente as acusações. Afirmou que o croqui era uma armação e que jamais pensara em cometer qualquer tipo de atentado. Disse ainda que estava sendo perseguido por expor a realidade dos militares brasileiros, e que sua entrevista à revista havia sido distorcida. 

Foto de arquivo do Superior Tribunal Militar sobre o documento recebido pelo Conselho de Justificação sobre a possível ameaça de Jair Bolsonaro jogar bomba no Rio de Janeiro. (Foto: Reprodução/Superior Tribunal Militar)

O caso ganhou enorme repercussão. O Exército instaurou um Conselho de Justificação, que inicialmente considerou Bolsonaro culpado e recomendou sua demissão. Contudo, o processo subiu ao STM, o órgão máximo da Justiça Militar da União no Brasil, que o absolveu por 8 votos a 4, alegando falta de provas conclusivas. Os laudos periciais chegaram a conclusões conflitantes, o que favoreceu o réu. 

O que Bolsonaro disse sobre a acusação? 

Desde o início do escândalo, Bolsonaro negou com veemência qualquer envolvimento com o suposto plano “Beco Sem Saída”. Em declaração ao Superior Tribunal Militar, ele afirmou: “Nego veementemente tal plano. Como posso provar que não o conhecia? À Veja cabe o ônus da prova.” O então capitão insistia que jamais cogitou utilizar explosivos como forma de protesto e considerava a matéria da revista como uma tentativa de calar sua voz. 

Durante as investigações, Bolsonaro destacou que os documentos apresentados pela revista não tinham autenticidade comprovada e que não havia elementos objetivos que ligassem sua pessoa aos croquis divulgados. A ausência de caligrafia pessoal nos documentos foi usada por sua defesa como prova de que não eram de sua autoria. 

Anos mais tarde, já como deputado federal, Bolsonaro comentou o episódio em entrevistas. Em uma delas, disse: “A Veja tentou me destruir, mas acabei me tornando vereador por causa disso. A população viu que eu não me dobrava e que não tinham como me calar.” Em outras ocasiões, reiterou que o caso foi “um marco” que o empurrou para a vida política, ressaltando que a sua detenção foi injusta e motivada por razões políticas e corporativas. 

Para Bolsonaro, a matéria da revista teve o efeito oposto ao desejado, impulsionando sua notoriedade. “Não me arrependo de nada. Se tivesse ficado calado, estaria até hoje na sombra do anonimato”, disse ele em entrevista à imprensa em 2018. 

De preso a vereador: o início da carreira política 

A prisão disciplinar de 15 dias, portanto, serviu como combustível para que Bolsonaro iniciasse sua carreira política. Ainda em 1988, ele se desligou do Exército e se elegeu vereador pelo Rio de Janeiro com uma campanha baseada justamente na defesa dos militares e na crítica ao tratamento recebido dentro das Forças Armadas. 

Na Câmara Municipal, ele se destacou rapidamente e, dois anos depois, foi eleito deputado federal, cargo que ocupou por quase três décadas. O futuro presidente sempre dizia que o caso de 1987 era prova de sua luta contra injustiças e seu compromisso com a verdade.  

A absolvição pelo STM, para ele e seus apoiadores, foi a confirmação de que a justiça foi feita. Pelo menos, à época. 

Bolsonaro não pode ser considerado reincidente

Muitos se perguntam se, diante das novas acusações que enfrenta, Bolsonaro poderia ser considerado reincidente. A resposta é simples: não. Do ponto de vista jurídico, para que haja reincidência, é necessário que a pessoa tenha sido condenada criminalmente por sentença definitiva, e posteriormente cometa outro crime. Em 1987, Bolsonaro foi absolvido pelo Superior Tribunal Militar e não possui condenação penal naquele episódio. 

Além disso, a prisão que sofreu à época foi disciplinar e administrativa. Ou seja, não há registro de antecedente criminal. Portanto, mesmo que hoje enfrente novos processos, ele não pode ser tratado como reincidente. O novo caso é completamente distinto, em outro contexto, com diferentes motivações e, novamente, envolto em muita polêmica. 

A história se repete, dizem alguns. Outros afirmam que Bolsonaro continua sendo perseguido por não se curvar aos poderosos. Mas o que permanece certo é que, desde jovem oficial até ex-presidente, Jair Bolsonaro sempre esteve disposto a enfrentar o sistema — e isso, para seus apoiadores, é razão de orgulho. 

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noticia por : Gazeta do Povo

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