Assim como no passado colonial, na atualidade a ideia de inferioridade do povo brasileiro persiste. Para a filósofa Marcia Tiburi, quem carrega o complexo de vira-lata não são as populações alvo dessa narrativa, mas sim as classes sociais dominantes. “Essa humilhação é uma tecnologia política utilizada pelos donos do poder, que são ao mesmo tempo os donos da violência, em um país colonizado, patriarcal e racista como o nosso, para explorar os mais pobres, as mulheres e negros.”
Ela ressalta que, ao longo do tempo, a repetição dessas ideias por intelectuais e integrantes de uma elite social e acadêmica, fez com que fosse tomada como verdadeira. “Por exemplo, se criou essa ideia de que brasileiro não trabalha. Quem já viveu na Europa sabe o quanto os brasileiros trabalham e muito. São falas que funcionam por repetição e que vão criando essa verdade que domina a subjetividade como um todo.”
Contudo, Tiburi observa que os grupos alvo de quem reproduz o discurso do complexo de vira-lata, passaram a se organizar em movimentos sociais, como o negro e o feminista de modo a se dissociar de um estereótipo negativo. “As populações que eram humilhadas vêm superando a humilhação por meio dos movimentos sociais, em que as pessoas criam consciência. A gente vê hoje uma negritude orgulhosa de si no Brasil.”
Para suplantar o sentimento de que o país não deu certo, os especialistas consideram que é preciso mais do que uma mudança de mentalidade, é necessário prover melhores condições de vida para a população, quanto ao ensino, transporte, segurança e saneamento básico, por exemplo. Dados oficiais apontam as dificuldades como 29% de analfabetismo funcional, falta de acesso à rede de esgoto em 37,5% das casas, além da persistência da insegurança alimentar em 27,6% das residências.
“Nós temos um leque de desafios de ordem prática que o país há muito tempo vem deixando de endereçar com a firmeza necessária”, diz Giannetti. “Acho que tão importante quanto a agenda mais pé no chão é a agenda simbólica. Oswaldo de Andrade, coloca a questão: tupi or not tupi? Eis a questão. Eu acho que a resposta é tupi and not tupi. Vamos absorver os elementos essenciais da cultura ocidental moderna, no que ela tem de importante, na medicina, na tecnologia, mas sem perder aquilo que nos distingue como cultura dotada de originalidade.”
Autor: Jéssica Moura, Maurício Cancilieri
noticia por : UOL



