Donald Trump anunciou tarifas de 50% sobre produtos brasileiros em uma carta aberta ao presidente Lula, marcando mais um capítulo da política externa americana baseada em pressão econômica. Para José Roberto de Toledo, a medida configura uma extorsão pura e simples.
O tema é um dos destaques do episódio desta semana do A Hora, podcast de notícias do UOL com os jornalistas Thais Bilenky e José Roberto de Toledo, disponível nas principais plataformas. Ouça aqui.
“O que o Trump fez, ou está fazendo, não tem outro nome a não ser extorsão, porque você está obrigando um país inteiro a fazer o que não quer, por conta de uma pressão, um exercício de uma ameaça”, afirma Toledo no podcast.
A justificativa oficial do presidente americano para as tarifas inclui uma suposta perseguição ao ex-presidente Jair Bolsonaro, o julgamento da trama golpista no Supremo Tribunal Federal e as decisões da corte sobre as big techs. “Ele diz que elas são censuradas no Brasil e isso justificaria também essas tarifas”, explica Thais Bilenky.
Contudo, esta não é a primeira vez que Trump recorre a essa tática. “Ele já foi e voltou. Não dá nem para contar quantas vezes ele já ameaçou um país de sobretaxar”, observa Toledo. “Já fez assim com a China, começou com 145%, acabou em 30%. Já fez isso com países pequenos da África, com Madagascar. Já fez isso com o México, já tentou fazer isso com a Groenlândia”, completa o colunista.
“Essas ameaças do Trump ficaram conhecidas como ‘copia e cola’. Porque tem um trecho lá que é igual para todo mundo, só troca o país e acabou”, ironiza Bilenky. “Ele voltou tantas vezes atrás que ele ganhou até um apelido. Ele é chamado agora de ‘taco'”, diz Toledo, referindo-se ao termo “Trump always chickens out” (Trump sempre desiste).
Do ponto de vista econômico, a medida não faz sentido para os Estados Unidos, analisam os colunistas. “O Brasil importa mais dos Estados Unidos do que os Estados Unidos importam do Brasil. A balança comercial é positiva para os Estados Unidos”, argumenta Bilenky.
O impacto político da ameaça no Brasil gerou mudanças significativas no discurso da oposição. Inicialmente, Eduardo Bolsonaro comemorou a medida, tentando se apropriar do mérito da pressão americana. “A primeira reação do Eduardo Bolsonaro, quando veio o anúncio da ameaça da tarifa, foi dizer que o Trump estava certíssimo”, relata Bilenky. “Ou seja, ‘fui eu que consegui fazer o Trump retaliar o Brasil'”, completa Toledo.
Porém, segundo levantamento da consultoria Palver, a estratégia bolsonarista não funcionou como esperado. “Quando eles viram que eles seriam culpados pela sobretaxação do Brasil, eles falaram: não, não posso dizer que foi mérito meu. Tem que entregar essa culpa para outra pessoa”, observa Toledo.
A mudança de narrativa foi capitaneada pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que responsabilizou o governo Lula pela situação. “Tarcísio de Freitas, que está cada vez mais candidato, mais presidenciável, se pronunciou dizendo que a responsabilidade era do Lula, que pôs a ideologia antes do pragmatismo na relação com os Estados Unidos”, relata Bilenky.
O monitoramento das redes sociais mostrou que, nas primeiras 36 horas após o anúncio, o impacto foi mais favorável ao Brasil, com uma proporção de 60% a 40% na movimentação orgânica – aquela que não é impulsionada por grupos pagos ou militantes profissionais.
Um dos setores mais afetados pela eventual implementação das tarifas seria o agronegócio, tradicionalmente alinhado ao bolsonarismo. “Vão ver os negócios deles sofrerem, penarem com essa decisão”, lembra Bilenky. “A soja e seus subprodutos estão entre os top 5 dos produtos mais exportados pelo Brasil para os Estados Unidos”, completa Toledo.
A resposta do governo será crucial para determinar o impacto político da crise. “A versão que vai colar mais, a versão que talvez possa ser vencedora para além das suas próprias bolhas, vai depender muito da resposta do governo Lula”, avalia Toledo.
noticia por : UOL



