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Marcelo Paiva e Ney Matogrosso foram fundamentais para o sucesso do RPM, diz Paulo Ricardo

Redação by Redação
6 de julho, 2025
in Sem categoria
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Paulo Ricardo está tentando me convencer de que ele é só um cara, como qualquer outro, um cara de 62 anos e uma cabeleira invejável, rosto bonito e corpo de quem se dedica a ele, boa postura, nenhuma barriga. Só um cara, que teve um sonho maluco, como todo adolescente. Só que, para ele, a vida sorriu.

“As pessoas tendem a pensar que o sucesso do RPM foi meteórico, instantâneo, mas não foi nada disso, demorou sete anos para a gente acontecer”, conta. Essa é uma história de 40 anos atrás, quando um monte de gente jovem, ou nem tão jovem, ou adolescentes com irmãos mais velhos que só queriam saber de sair com os amigos para dançar, beber, beijar e se divertir, de repente começou a ouvir, nas pistas das então chamadas “danceterias”, uma música brasileira.

Começava com esse verso irresistível: “Disfarça e faz que nem me viu, nem me ouviu te chamar”, só cantado, com uma voz meio rouca, super sexy. E então entrava um som ultra dançante, eletrônico, novo, era uma daquelas canções meio hipnóticas que faziam todo mundo dançar até cair. A novidade era “Louras Geladas”, o primeiro hit do RPM e o primeiro remix made in Brasil.

“O hit é um mistério total. Ninguém tem o dom de prever o que vai ser e o que não vai ser um hit”, me diz o cantor, em uma entrevista de mais de uma hora no palco de uma casa de show em São Caetano, onde ele está passando o som para a estreia da turnê XL. A propósito, XL é 40 em algarismos romanos, não é uma insinuação de nada (ô mente poluída!).

“Foram sete anos desde o encontro com o Luiz Schiavon, meu parceiro nessa aventura, até a gente ter um hit. Eu tinha 16 anos quando o conheci, ele 20, a gente se entendeu de cara e decidiu formar uma banda. Mas demorou para dar certo”, conta.

No meio do caminho, o cantor chegou a desistir de ser músico, de tão desiludido. E, como era formado em jornalismo, foi tentar a sorte como crítico de música. Mudou-se para Londres, e lá, entre entrevistas com roqueiros já estabelecidos na profissão, Paulo Ricardo se inspirou e começou a compor.

“Foi lá que fiz ‘Louras Geladas’, ‘Rádio Pirata’ e tal. Aí eu entendi que precisava voltar, que queria trazer o que tinha aprendido em Londres para o Brasil”, lembra. “Liguei pro Schia e falei: ‘Tem uma cena nova rolando por aqui, com domínio total dos sintetizadores, mas um som pop, dançante, moderno. A gente precisa retomar a parceria’.”

Luiz Schiavon era formado em piano clássico, mas fascinado pelas possibilidades da música eletrônica, conhecia todas as novidades da tecnologia. “Nós fomos pioneiros mesmo, e privilegiados porque ninguém fazia isso por aqui ainda.”

“Aí entra o [hoje escritor] Marcelo [Rubens] Paiva na história. Ele era meu amigo de faculdade, a gente ia junto pra ECA todo dia e saía todas as noites. Mas ele tava fazendo o maior sucesso com o ‘Feliz Ano Velho’, e um dia me disse assim: ‘Olha, eu recebi um convite da CBS, eles souberam que eu tive banda e querem gravar. Mas eu não tenho nenhum interesse. Tô escrevendo meu próximo livro, tô zero a fim de banda. Agora, se você quiser, vamos lá comigo e você mostra a sua fita’.”

Ele foi, lógico. Ficou no fundo da sala, quietinho durante a reunião. Na hora em que Paiva revelou que não queria mais saber de fazer música, apontou para o amigo e disse “ele tem uma banda e quer mostrar as músicas”. Paulo Ricardo entregou uma fita cassete com as três primeiras composições do RPM, “Louras Geladas”, “Revoluções Por Minuto” e “A Cruz e a Espada”. Os caras ouviram, gostaram e resolveram gravar.

“Lançamos um compacto em novembro de 1983. Não aconteceu nada. Não fez nenhum sucesso. Aí fizemos o álbum, saiu em maio de 1985. Também não aconteceu nada. Nada. A gente estava desesperado”, lembra. Mas, aí, eis que a equipe do marketing da gravadora pergunta se eles topariam fazer um remix. “A gente falou: ‘Claro, vamos fazer. O que é um remix?'”

Remix é uma versão alternativa de uma música, uma recriação a partir da faixa original, geralmente com novos instrumentos e até um arranjo totalmente novo, que pode transformar uma balada em uma música eletrônica.

“O remix de ‘Louras Geladas’ foi o embrião da música eletrônica brasileira, da cultura do DJ, de tudo que viria depois, nas décadas que se seguiram. É o primeiro remix do Brasil.”

Tocava sem parar, em todos os lugares. Mas o sucesso de “Louras Geladas” não grudou na imagem do RPM. Só no ano seguinte as outras canções começaram a circular em rádios e na TV. O álbum foi lançado mais de um ano depois do compacto, em 1985. Por isso, esse é o ano que Paulo Ricardo considera o do aniversário de 40 anos, quando o RPM ficou famoso, não só uma música.

Na hora de preparar a primeira turnê, foi a vez de Ney Matogrosso fazer sua mágica. Chamado para dirigir o show, “de cara, ele nos disse: ‘Tira um pouco de roupa. Vocês estão com muito casaco, chapéu, sobretudo, tá muito São Paulo’. O guitarrista Fernando Deluqui, que também era surfista, falou: ‘Tudo bem, tiro a camisa’. Eu não tive coragem, mas botei uma camiseta sem manga. Foi um masterclass de show business”, lembra.

O rock brasileiro estava começando a despontar, com Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Titãs, Capital Inicial. Mas a loucura do RPM era de outra natureza. “Você não estuda para ser um cara do rock, né? Não existe esse plano, o que a gente viveu foi um delírio. Ninguém em sã consciência pode almejar um sucesso assim. A gente só pensava em viver de música”, diz. “Mas de repente começou uma espiral de loucura, uma explosão inexplicável. A gente vendia mais que o Roberto Carlos.”

Pergunto como ele sobreviveu a tudo aquilo, e sua resposta não pode ser mais surpreendente. “Eu sempre fui um pouco filhinho de mamãe, sabe? Tinha sempre aquele negócio: ‘Meu filho, olha o sereno, pega o casaco’. Cresci assim, alarmado pela minha mãe. Então eu tinha um pé atrás e procurava equilibrar as coisas. Convivi muito intimamente com o Cazuza, com o Renato Russo. Perto deles eu era um coroinha”, diz.

“Eles não tinham limites, era uma coisa louca, nunca tava bom. Para mim, uma hora tava bom, eu falava: ‘Gente, deu’. Eu até virava duas noites, mas eu não virava três noites”, afirma.

O RPM terminou de um jeito triste, com os outros três membros da banda processando o vocalista para poder seguir com o nome e o repertório, mas sem ele. “Eu nunca quis sair da banda, nem que o RPM acabasse. Eu só queria dar um tempo, um ano, sei lá. Bandas dão um tempo, casais dão um tempo, acontece. Eu disse isso e eles concordaram, tava tudo certo.”

“Quando acabou o último show, num navio, num cruzeiro chamado ‘Energia na Veia’ com o Capital Inicial, o Deluqui veio até a minha cabine e falou: ‘Ó, a gente conversou e não vamos parar’.”

“E entraram na Justiça para eu não poder cantar as músicas do RPM. Era um absurdo e claro que não podia dar certo, tanto que ganhei a causa. E nunca mais os vi.”

“O PA [Paulo Antonio Pagni, baterista da banda] faleceu em 2019, o Schiavon em 2023. O Deluqui tá vivo mas também nunca mais falei com ele desde o rompimento, em 2017.”

A turnê XL não tem nada de triste, é uma comemoração. “Deixei o público escolher o que eles queriam ouvir e dei voz às pessoas que queriam ouvir as coisas não óbvias. 60%, talvez 70%, são os grandes sucessos.” Mas também tem o Roberto Carlos, Vinícius de Moraes e outros nomes improváveis. “Vou tocar ‘Chega de Saudade’, que eu nunca fiz ao vivo, mas gravei com o Toquinho num álbum em 2020.”

Já os shows da turnê “Rock Popular” fazem homenagem a outros músicos que influenciaram a carreira de Paulo Ricardo. Alguns foram seus grandes amigos, como Raul Seixas, Cazuza e Renato Russo.

Pergunto se a vida de rockstar é tão legal quanto parece, olhando de fora, e o que ele pensa de tudo agora, com essa perspectiva de ter dedicado a maior parte da vida a esse estranho ofício.

“Como tudo na vida, tem ônus e bônus. Para quem não aguenta a batida das constantes viagens e hotéis, é muito difícil. Também não costuma funcionar para pessoas muito metódicas, apegadas à rotina. Dito isso, sim, é tão legal quanto parece. Bem mais, na verdade”.

noticia por : UOL

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