4 de abril de 2025 - 14:57

Como a Igreja deve agir com com a inclusão de pessoas especiais, como autistas?

Nos últimos anos, o número de crianças e adolescentes diagnosticados com Transtorno do Espectro Autista (TEA), popularmente conhecido como autismo, tem crescido de forma significativa. O TEA é uma condição comportamental, caracterizada por dificuldades na comunicação, interação social e padrões de comportamento repetitivos.

Embora seja reconhecido como um distúrbio global do desenvolvimento, suas causas são atribuídas a fatores genéticos, neurológicos e ambientais.

Conversamos com o teólogo e especialista em aconselhamento pastoral e terapia familiar no tratamento de autismo, Glauco Ferreira, pastor da Igreja Metodista em Guadalupe, no Rio de Janeiro. Ele é pai de Asafe, um adolescente autista não verbal diagnosticado em 2012. Glauco compartilhou suas experiências e insights sobre a importância da inclusão de pessoas com autismo nas igrejas e como esse processo pode ser feito de forma eficaz.

Comunhão – Podemos afirmar que o aumento de casos de autismo é uma tendência recente, ou sempre houve essa realidade, apenas agora mais visível?

Glauco Ferreira – O que ocorre hoje é um maior acesso ao diagnóstico. Anteriormente, o autismo nem sempre era identificado corretamente, ou o diagnóstico demorava a ser feito.

Atualmente, com o aumento da sensibilidade dos profissionais e a maior disponibilidade de informações, há um número maior de diagnósticos, o que contribui para a percepção de que mais crianças estão sendo diagnosticadas. Não necessariamente existem mais casos, mas sim mais diagnósticos, refletindo o aumento do conhecimento sobre o transtorno.

Como as igrejas podem se preparar para lidar com o autismo em todas as fases da vida de uma pessoa com o transtorno?

Glauco Ferreira – A inclusão não deve ser vista como apenas a criação de um ministério específico para autistas. A inclusão precisa ser integrada à estrutura principal da igreja, de modo que todos os membros compreendam sua importância. Para isso, é necessário:

Levantar voluntários para o ministério de inclusão: Pessoas dispostas a se dedicar a essa área são essenciais. Sem elas, nada pode ser feito. Esse é o primeiro passo para implementar a inclusão.

Estabelecer parcerias com as famílias: As famílias conhecem suas crianças como ninguém mais. Elas sabem o que pode desencadear crises ou como acalmá-las. O relacionamento próximo entre a igreja e as famílias é crucial para a inclusão eficaz.

Analisar o ambiente da igreja: A compreensão das dificuldades sensoriais do autista é fundamental. Nem sempre o som é o principal problema; a iluminação, por exemplo, também pode ser um fator de desconforto.

É importante oferecer recursos, como abafadores de som ou óculos escuros, para que a criança possa vivenciar o culto de forma confortável. Profissionais como terapeutas ocupacionais podem orientar nesse processo.

Como incluir as crianças autistas na igreja e trabalhar com os pais nesse processo?

Glauco Ferreira – A inclusão deve partir do púlpito. A liderança da igreja é responsável por orientar a congregação sobre a importância da inclusão, tornando-a parte da cultura da igreja.

Em relação aos pais, é importante destacar o impacto emocional do diagnóstico do autismo. Ao contrário de outros diagnósticos que podem ser identificados durante a gestação, o autismo geralmente é detectado após o nascimento, o que causa um grande impacto nas famílias.

Muitas vezes, os pais enfrentam um processo de luto pelo “filho idealizado” e precisam se reinventar para lidar com a nova realidade. Ao chegarem à igreja, muitas famílias não querem ver seus filhos excluídos, o que pode levar a reações como o superprotecionalismo ou até o sentimento de vergonha.

A inclusão na igreja é, portanto, uma forma de dar protagonismo aos autistas e a todas as pessoas com deficiência. A oportunidade de vivenciar o Evangelho é essencial para todos, independentemente de suas limitações.

Qual a visão da espiritualidade sobre o autismo?

Glauco Ferreira – Infelizmente, muitas pessoas ainda têm uma visão equivocada sobre deficiência, associando-a ao pecado dos pais, algo que remonta ao Antigo Testamento. Essa concepção está errada.

Deficiência não é um castigo ou maldição. A Bíblia aborda a questão das deficiências de forma clara, como em Levítico 19:14, que instrui a não amaldiçoar o surdo nem colocar obstáculos ao cego.

A ideia de que uma criança nasce com autismo ou outra deficiência por falta de Deus ou por maldade é equivocada. A deficiência tem um propósito divino, e a Bíblia nos orienta sobre a importância de incluir todos, independentemente de suas limitações.

Como a igreja pode apoiar?

Glauco Ferreira – Quando recebemos o diagnóstico de autismo, a reação inicial pode ser o lamento e a paralisia. Porém, é fundamental que os pais superem o choque e comecem a buscar o propósito de Deus para seus filhos.

Para mim e para minha esposa, nossa vida mudou quando deixamos de questionar “por que o Asafe nasceu em nossa casa?” e passamos a perguntar “qual é o propósito de Deus para ele?”.

Embora tenhamos precisado abrir mão de muitos sonhos, a experiência tem sido enriquecedora, e temos trabalhado para dar ao Asafe autonomia e qualidade de vida. Hoje, vemos o impacto positivo desse trabalho na vida dele e na nossa, e se houvesse a oportunidade de voltar no tempo, faríamos tudo novamente, pois nos tornamos pessoas melhores nessa jornada.

A inclusão de Asafe na escola e na igreja, através do trabalho conjunto com a família, tem sido fundamental. O verdadeiro propósito de Deus é nos levar a entender e viver a vida com mais significado, independentemente das dificuldades que enfrentamos. Com: Comunhão

FONTE : Gospel Mais

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