Aos 60 anos, Judy Henderson caiu de joelhos em 2017 na sala de visitas de uma prisão no estado do Missouri, nos Estados Unidos. Após cumprir 35 anos de uma sentença de prisão perpétua sem direito a liberdade condicional, ela foi informada de que sua pena seria comutada. A decisão partiu do então governador do estado, Eric Greitens (Partido Republicano).
“Ele simplesmente me pegou pelos ombros e disse: ‘Judy, são boas notícias. São boas notícias para você. Hoje, vou comutar sua sentença para tempo cumprido, liberação imediata’”, relatou Henderson. Segundo ela, o momento permanece vívido em sua memória. “Ainda sinto arrepios só de pensar nisso.”
O caso de Henderson está no centro de seu novo livro de memórias, When the Light Finds Us, publicado nos Estados Unidos. A obra narra o que ela descreve como um erro judiciário devastador, acompanhado por uma trajetória de fé cristã, resiliência e reconstrução pessoal.
A condenação
Judy Henderson foi presa em 1982, acusada de participar de um assalto a uma joalheria na cidade de Springfield, Missouri. O crime terminou com o assassinato do joalheiro. De acordo com seu relato, o autor do disparo foi seu então namorado, descrito por ela como alguém “suave, educado e convincente”. Henderson afirma ter sido manipulada por ele e ferida durante o crime.
Ambos foram acusados de homicídio capital. No entanto, apenas Henderson foi condenada. Um fator central do julgamento foi posteriormente considerado inconstitucional: ela e seu co-réu eram representados pelo mesmo advogado.
“Fui a julgamento primeiro, então não pude subir ao banco das testemunhas e ser honesta e dizer a verdade sobre isso porque isso machucaria o outro cliente dele”, disse ela. “Você não pode dar a um um julgamento justo e não ao outro”.
A pena imposta foi prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional por 50 anos. Henderson entrou no sistema prisional, nas palavras dela, “em uma névoa de descrença e raiva”.
Transformação na prisão
Durante as décadas em que esteve encarcerada, Henderson passou por um processo de transformação espiritual. O ponto de virada, segundo ela, ocorreu em um retiro cristão de três dias dentro da penitenciária.
“Sempre que eu via a enormidade de quanto amor havia neste retiro de três dias, e como esses voluntários […] escolheram fazer isso porque tinham o amor de Deus neles, isso me deu esperança”, afirmou.
Ela se apoiou no versículo bíblico de Jeremias 29:11, que manteve afixado no espelho de sua cela: “Porque eu sei os planos que tenho para vocês… planos para dar a vocês um futuro e uma esperança”.
Além da dimensão espiritual, Henderson investiu em sua educação e formação profissional. Tornou-se paralegal certificada, treinadora de cães, personal trainer e cabeleireira. Também passou a atuar como mentora de outras mulheres presas.
Atuação pela reforma legal
Nos anos seguintes, Judy Henderson se envolveu ativamente em causas de reforma do sistema judiciário. Contribuiu para a elaboração de uma legislação estadual no Missouri que reconhece a síndrome da mulher espancada como base para defesa legal em processos criminais.
“Você pode ficar amargurada ou pode melhorar”, disse. “Eu escolhi melhor porque a raiva só estava me machucando […] Eu tive que me levantar com a ajuda de Jesus Cristo.”
Após a comutação da pena e sua libertação em 2017, Henderson passou a trabalhar com mulheres recém-libertas da prisão. O objetivo, segundo ela, é ajudá-las a encontrar moradia, reconstruir laços familiares e iniciar uma nova vida.
“Essa é minha missão. Esse é meu propósito. … Eu farei isso até o dia em que eu der meu último suspiro”, afirmou.
Perdão e reconstrução
Ao tratar de seu passado, Henderson evita ressentimentos. “Deus nos perdoou. Ele morreu na cruz e sofreu enormemente por nós”, declarou. “Como eu poderia, amando-O como meu Pai, não perdoar os outros como Ele fez?”
Ela enfatiza que o perdão não se trata de ingenuidade, mas de escolha consciente. “Eu não queria que Satanás pensasse que ele tinha esse tipo de poder sobre mim”, afirmou. “Eu não queria amargura.”
A capa do livro When the Light Finds Us traz a imagem de uma flor desabrochando através de arame farpado. A metáfora, segundo Henderson, representa sua trajetória da escuridão à liberdade.
“Luz para mim simboliza liberdade. Eu estava em tal escuridão por tantos anos sem nem perceber”, disse. “Não perca a esperança. Às vezes, só precisamos ouvir a voz Dele […] Esse é o seu sinal. Vá em uma direção diferente. Deixe que Ele lhe mostre.”
Judy Henderson vive hoje como avó, autora e ativista, buscando guiar outros por meio da fé cristã, do apoio comunitário e da esperança que, segundo ela, a sustentou nos anos mais difíceis de sua vida, de acordo com informações do The Christian Post.
FONTE : Gospel Mais