Nesta semana, tivemos uma ilustração do impacto da escala 6×1 quando é levada às últimas consequências. O grupo especial de fiscalização móvel fez uma coletiva à imprensa anunciando o resgate de 163 operários chineses que estavam em condições análogas às de escravo na obras da nova fábrica da BYD na Bahia. Contratos analisados pela fiscalização previam jornada de dez horas por dia, seis dias por semana, com possibilidade de extensão.
Considerado o trabalho pesado de pedreiros, carpinteiros, armadores, carregadores, soldadores, entre outros, a jornada exaustiva, que impossibilitava o descanso, criava um ambiente propício a acidentes de trabalho. Houve pelo menos quatro, inclusive com amputação de membros e perda de movimentos nos dedos. No Brasil, jornadas de dez horas ocorrem quando o trabalhador faz duas horas extras além das oito previstas em lei.
O debate sobre redução de jornada é civilizatório, pois diz respeito ao modelo de desenvolvimento que queremos. Mas ele é só inclui parte dos trabalhadores na discussão.
Há uma multidão de precarizados, como entregadores e motoristas de aplicativos, que ainda vão à rua de domingo a domingo, em jornadas que ultrapassam as 70 horas semanais, acreditando que o tal artigo 7º da Constituição Federal (que trata dos direitos trabalhistas) não diz respeito a eles. Não à toa foram convencidos de que são empreendedores e não trabalhadores.
Empreender é fundamental e precisa ser estimulado, a fim de que riqueza seja produzida para os donos do negócio e a comunidade em que eles estão inseridos. Mas glamourizar a precarização sob esse verniz é só uma forma de garantir que o pessoal continue prestando um serviço sem reclamar, sob a ilusão de que todos vão chegar lá um dia.
A discussão sobre a qualidade de vida não ficará completa sem garantir aos trabalhadores do 7×0, ou seja, a turma sem carteira assinada, uma remuneração justa e um mínimo de proteção de seguridade social. Para isso, temos que avançar com a discussão no STF sobre a responsabilidade de empresas que ganham muito com esse grupo, como as plataformas de aplicativos.
noticia por : UOL